Espero por ti em Luanda: um retrato impressivo, uma leitura indelével
Espero por ti em Luanda (2015, Clube do Autor) envolveu-me por completo desde o primeiro momento, em que o autor, pela mão de Ruizinho, nos convida a voar para uma outra realidade. Afinal, quem melhor que uma criança – para mais uma assaz fascinante, dotada de extrema sensibilidade e já tão ciente e empenhada em contribuir para a construção de conceitos como a igualdade social (nota para a p.19), a autonomia a que todos (os povos) têm direito, a verdade, a justiça, a solidariedade ou a “Humanidade do Outro” (espantando-se e revoltando-se ante a ausência tantas vezes constatada de cada um), sem esquecer o preponderante amor, inclusive, romântico – para despertar os adultos, por vezes, pouco lembrados do essencial, que é invisível aos olhos, como dizia Antoine de Saint-Exupéry?
Partimos rumo ao desconhecido, e (re)descobrimos Luanda, destino de tantos portugueses a partir de cerca da segunda metade do séc. XX, com alguns picos durante os anos 60 (de 1966 a 1974, haviam chegado a Angola, de avião ou de barco, aproximadamente meio milhão passageiros embarcados em Lisboa [1]; não foi possível encontrar dados para o Brasil). Trata-se de um lugar de singulares belezas (ainda que com algumas similitudes à amada e saudosa pátria do protagonista, o Brasil, segundo o próprio reconhece, a qual se viu obrigado a deixar), naturais e culturais, como a Livraria Lello ou o Palácio de Ferro, que avô e neto exploram intensamente, reservando ainda um privilegiado lugar para o leitor.
Porém, esse espaço vai-se tornando cada vez mais ameaçador à medida que a ação se desenrola, entre março de 1974 e 16 de maio de 1975 (dia da partida para Portugal), numa correspondência harmoniosa e factual com o escalar dos conflitos associados aos movimentos de libertação de Angola. No meio de tantas convulsões, salva-o (nos) os encantos de um lar dominado pelos afetos, que nos ensinam o valor da família (a quem compõe uma ode), nos momentos tempestuosos, e em quaisquer outros; e os livros, sempre os livros (“perceber ali uma forma de equilibrar o mundo”, p.12), que o avô lhe comprava ou que devorava na papelaria dos pais.
Sem dúvida que Ruizinho cresceu e se desenvolveu observando exemplos excecionais, como o do tio Hermínio, oficial do Exército Português que ajudou a negociar a paz em Angola, dos pais, Elvira e Fernando, que, apesar do alto risco que corriam, ou seja, a morte, acolheram uma “esquálida” guerrilheira em casa (cujas aventuras ela dá a conhecer durante esta permanência), e dela cuidaram com todo o esmero (cf. [2] – Excerto 1), ou do avô Manuel, que ajudou várias pessoas sem perspetivas a subir na vida, como Njamba.
Como não podia deixar de ser num livro deste género literário, não falta também o ingrediente romance, mas que em tudo é extraordinário: bastará dizer, por exemplo, que se estabelece entre personagens díspares na idade (cuja diferença é de apenas 8 anos, um pequeno intervalo na fase adulta, mas significativo na infância; porém, há que recordar a maturidade precoce do protagonista, que afirma que, “O meu coração (…) era, portanto, o de um rapagão já muito vivido, conhecedor de todas as facetas da vida”) e na etnia, provando que o amor verdadeiro não respeita barreiras impostas pelo homem, sendo puramente espiritual, e é essa a sua magia.
A esse facto soma-se o de que se tratou do “grande amor da minha já longa existência” e, quiçá, do primeiro grande amor de Rui, como tal, inesquecível. Para mais, dos que, não tendo uma concretização possível, assinalam nitidamente um antes e um depois na vida, um salto astronómico de crescimento, da infância para a vida adulta (atente-se na seguinte passagem: “Cresci novamente. O meu espírito envelheceu mais alguns anos.” – p. 190; a passagem completa encontra-se no [3] – Excerto 2), qual rito de iniciação, operado pelo exemplo e orientação dados e pelo amor compartilhado por alguém digno da mais alta admiração, com os quais, por vezes, sentimos, pela primeira vez, a afinidade que nos desperta para a nossa própria missão.
E, de qualquer forma, poderá lá haver algo mais bonito que os sonhos inocentes, puros e arrebatadores de amor de uma criança? “A sala transforma-se em templo. Um templo todo branco, e eu de branco estou, a receber uma rosa branca e a beijar-lhe as pétalas de seda pura, esculpidas por caridosas mãos de anjos e sopradas para o mundo por bocas celestiais.
«Os meus nove anos de idade nada são. Sinto que a alma transcende o corpo. Sinto que quero alar-me num repente, fazendo com que a minha doce Ngeve consiga ver-me como o seu único alento, nesta dura vida, neste momento de infortúnio que o meu espírito consegue alcançar… para breve. Tão breve que desde o primeiro momento daquele dia parece-me o último de nossa existência.
«Ecoam em mim sinfonias. (…)”, afirma, na página 78.
É ainda desafiador, pelo teor tão realista de diálogos, descrições dos espaços, personagens, psiques e ações, quer do presente da história, como do seu passado, discernir a realidade da ficção. (Nomeadamente, deverá o livro, realmente, o seu nome a uma carta de mensagem telegráfica? O seu remetente terá realmente existido?) No entanto, com tanto detalhe, podemos induzir que a história é, em grande parte, um testemunho das vivências do próprio autor, por sua vez, incrivelmente afortunadas, pois que incluem a convivência com os líderes dos movimentos independentistas angolanos, descrita pelo agraciado escritor como de grande cordialidade e alguma intimidade, inclusivamente para com o carismático, temerário e sagaz benjamim (cf. [4] – Excerto 3). Relativamente a este ponto, pode ainda salientar-se a impressionante capacidade de recordação do autor, volvidas quatro décadas.
O estilo é encantador, sendo pautado por uma riqueza e diversidade lexicais, espelho da vasta cultura e leitura de Rui Calisto, onde encontramos termos já pouco utilizados no discurso quotidiano, mas de grande beleza e profundidade semântica, de que tão devota e apaixonadamente cuida e preserva, como poeta. Ainda assim, o livro é muito acessível, com frases curtas (mas densas) e dinâmicas, sendo, ademais, pontilhado de momentos ilustrativos de um sentido de humor bastante apurado, intercalando ainda momentos mais tensos com períodos de acalmia, porém, jamais perdendo de vista a cálida visão dos factos, pois que embebida da serena sabedoria espiritual que caracteriza o escritor. Enfim, não há como não empatizar profundamente com Ruizinho e sentirmo-nos um observador direto do “cenário do crime”.
De resto, como já deve ter ficado bem claro, o livro é marcado por uma emotividade profunda, indubitavelmente indicadora de uma alma Luminar e vinda do fundo dos tempos, tão genialmente transformada em texto (um dom – amplamente reconhecido – que, como o livro também dá a conhecer, vem já da meninice), que subjaz a todos os episódios. Estes, por sua vez, revelam factos ficcionados a partir de uma realidade surpreendente, que vem enriquecer a já conhecida História desses derradeiros tempos coloniais (e que ali é, igualmente, tão bem explicada, a maioria pela voz do tio Hermínio, que traz as “notícias frescas”). “(…) A minha alma já percorreu várias vezes este mundo, e já viu muito mais daquilo que muitos nunca verão” (p.18), escreve.
Por tudo isto, Espero por ti em Luanda deixou uma marca indelével no meu ser, não me cansando de o reler, de o esmiuçar, no conteúdo histórico, nos sentidos e sentimentos, em crescendo. Desde a paixão por Ngeve, a ternura pelo avô, a excitação ante o mundo novo, toda esta entrega absoluta ao registo da história pessoal e familiar, e do próprio país, inspira o meu sentir e o meu imaginário, de tal modo que nasce também em mim a vontade de deixar para a posteridade as minhas vivências.
Somos abençoados por poder conhecer, de forma tão profunda, uma alma ímpar e dotada das mais excecionais Virtudes como a de Rui Calisto, excelso “convidado para a lavoura da Luz” (no dizer do Espírito Emmanuel, guia de Francisco Cândido Xavier), inspirado artista, contemplador e criador exímio da Beleza, de cuja fonte etérea tem a chave, e de quem tanta inspiração recebe (cf. O Espiritismo na Arte, Capítulo I, de Léon Dennis), incansável candeia da Humanidade, a quem, contudo, tão necessário e merecido é também o azeite dos escritores.
Considero, pois, que se trata de um forte concorrente aos maiores prémios de língua portuguesa, e não só (de igual forma penso que muito se teria a ganhar em traduzir a obra). Ainda, sou apologista da sua integração no Plano Nacional de Leitura, pois é uma fonte histórica, de Língua Portuguesa (Lusofonia) e Cidadania, contendo igualmente apontamentos musicais, que completam o todo cultural. O sucesso de vendas fala por si, não havendo quase nenhum stock disponível, dos 25 mil exemplares impressos, segundo o autor, a quem tive o privilégio de aceder.
Longa vida ao mestre, e que nos continue a brindar com estas pérolas literárias, autênticos bálsamos para a alma!
ANEXOS
[1] – Cláudia Castelo, Passagens para África. O Povoamento de Angola e Moçambique com Naturais da Metrópole, Porto, Edições Afrontamento, 2007, 405 páginas
[2] – Excerto 1: “A convulsão generalizada diminuíra, embora, cada um a seu modo, antevisse o fim da sua vida. Meu tio, com a camisa colada às costas, mantinha-se imóvel, agitando-se quando percebeu a chegada de alguém. Começámos a ouvir passos fortes e percebemos que havia pessoas no corredor. De repente, Hermínio estendeu a mão, dizendo com certa preocupação:
– Senhor Chipenda [líder da Revolta de Leste do MPLA].
A resposta veio inaudível. O tal senhor entrou e logo em seguida surgiram outros guerrilheiros. Sem alarde, mas com firmeza nos passos, espalharam-se pelo apartamento e o percorreram. As suas armas estavam bem visíveis, encostadas ao corpo. O conjunto, homens e armas, representava uma pintura sinistra. Ouvíamos o abrir e fechar de armários e gavetas com tal insistência que parecia que não estavam a procurar ninguém, mas sim, algo. O meu tio, percebendo que Ngeve poderia ser apanhada, o que significaria o fuzilamento de toda a família, perguntou ao Sr. Chipenda se gostaria de beber alguma coisa, ou mesmo comer, pois, visto que estavam em trabalho, poderiam necessitar de qualquer coisa que lhes confortasse o estômago. (…) Há muito que não sentiam no corpo uma refeição quente. (…) Em breves instantes, após ter-se levantado, o Sr. Chipenda agradeceu ao meu tio a hospitalidade, pediu desculpa por qualquer inconveniente e cumprimentou-o com um aperto de mão.” (pp. 146-148)
[3] – Excerto 2: “Desde aquela ocasião, rezo todas as noites a Ngeve, pois sinto a vida de outro modo. Compreendo agora as razões que fizeram o meu espírito escolher a família que tenho, no ato de conceção do meu ser, bem como o motivo de a minha alma decidir que esse nascimento fosse no Brasil e a necessidade de ter de estar em Angola, num período tão difícil para esse país santificado.” (p.190)
[4] – Excerto 3: “Não havia pacatez nos meus dez anos de idade. Era já um velho. Conhecia todas as histórias sobre a guerra que se vivera até então naquele país, estava familiarizado com a morte, pois era tema diário de conversa, mais ainda quando o meu tio estava presente, por este trazer aquilo que comumente chamam notícias frescas. Jonas Savimbi [líder da UNITA], Agostinho Neto [líder do MPLA e primeiro presidente da República Popular de Angola] e Holden Roberto [líder da UPA, depois, FNLA] faziam parte do meu dia-a-dia. Almoçavam e jantavam comigo. Conhecia-lhes a alma. Entendia-os. Para mim, cada um possuía um valor inestimável. Não os compreendia como políticos, pois isso era algo sem sabor, oco. Entendia-os enquanto apaixonados por sua terra e por sua gente. Cada um a seu modo lutava por um ideal.” (p. 204)
Joana Cavaco