Prefácio a'O Declínio das Fábulas (Volume I)
No Livro dos Espíritos, entre as questões n.º 100 e 113, Allan Kardec dá a conhecer a escala espírita, classificando o espírito mais puro e evoluído que pode encarnar na Terra como um “Espírito Superior”, pertencente à segunda classe, logo abaixo dos Espíritos Puros (anjos, arcanjos e serafins). “Esses em si reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. Da linguagem que empregam se exala a benevolência: é uma linguagem invariavelmente digna, elevada e, muitas vezes, sublime. A sua superioridade torna-os mais aptos do que os outros a darem-nos noções exatas sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao Homem saber. Comunicam-se complacentemente com os que procuram de boa-fé a verdade e cuja alma já está bastante desprendida das ligações terrenas para a compreender. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a curiosidade impele, ou que, por influência da matéria, fogem à prática do bem. Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir uma missão de progresso, e então oferecem-nos o tipo de perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo”, pode ler-se no livro, a respeito daqueles luzeiros na Terra.
Poder-se-ia dizer que Rui Calisto pertence a esta categoria de espíritos, ou, quiçá, à mais elevada de todas, a avaliar pela sua “superioridade intelectual e moral absoluta”. Indubitavelmente, trata-se de um “apóstolo da caridade” e de um “missionário do conhecimento”, igualmente “embaixador da Vida espiritual” e “proclamador do amor, do respeito à vida em todas as suas expressões”, que, abnegadamente, esparge a sua luz entre nós (expressões aquelas presentes em No Rumo do Mundo de Regeneração, de Divaldo Franco). Por sua vez, segundo a definição de Platão, na República, poderíamos afirmar que a sua alma venceu as amarras do corpo e foi devolvida ao estado de pureza, vivendo contemplando as Ideias e sob o domínio da Razão, que dita o desejo do bem e de conhecer sempre mais, a quem a ambição e os desejos materiais se subjugam, à semelhança dos magistrados filósofos dessa cidade bela e ideal, a Kallipolis (junção do grego “kalós”=bela(o) e “polis”=cidade).
É essa mesma cidade ideal a que, pelo seu prolífico trabalho, tem procurado erguer, nos vários locais por onde tem passado, seja a nível cultural ou político. Autor de extensa obra, que inclui mais de sessenta livros (a maior parte por publicar) e um sem fim de artigos publicados em jornais portugueses e brasileiros, revistas de institutos científicos e centros de estudos, entre o seu trabalho tem-se destacado o resgate da memória de importantes autores, que, na atualidade, carecem de maior divulgação e interesse do público, os artigos sobre História local e nacional, não raro apresentando factos inéditos, resultantes de uma aprofundada investigação, sem esquecer os belos romances com que aquece sobremaneira o coração do leitor, tal o seu conhecimento da alma humana e o seu domínio da língua, cujas palavras, como uma bela melodia que não vem deste mundo, embalam e conduzem o leitor, pela mão, até um universo repleto de cor, onde se sente o pulsar da vida e há um sentido maior.
Na política, de forma desinteressada e movida apenas por um sentimento puro de fraternidade e desejo de liberdade e igualdade universais, tem-se envolvido e liderado a luta pela cultura, a ação social e a criação de uma cidade onde o património histórico e natural sejam preservados, valorizados e aproveitados para os melhores fins. Com efeito, foram cerca de cinquenta (um número recorde) as propostas que, entre outubro de 2017 e o mês homólogo de 2021, apresentou na Assembleia de Freguesia da União das Freguesias das Caldas da Rainha – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório, na qual foi deputado, e que foram, sem exceção, aprovadas por unanimidade, e com aclamação, porém, uma apenas tendo conhecido a luz do dia, a da Criação do Parque Canino Municipal junto à ESAD, sem que Rui Calisto, no entanto, tenha sido reconhecido, publicamente, enquanto autor da proposta. Este livro trará, no entanto, o devido esclarecimento, apesar da intenção do autor nunca ter sido a de se promover, mas apenas o bem-estar da comunidade que tanto se empenhou em servir e que sempre se preocupou em ouvir e esclarecer através da prestação de contas.
Ciente das potencialidades, históricas e naturais, muitas delas ímpares, do concelho das Caldas da Rainha, tanto no Jornal das Caldas, onde foi publicando, semana após semana, na coluna Escaparate, os artigos que serviram de base às propostas políticas, entre outros, os primeiros 24 dos quais se encontram neste volume, como no banco da Assembleia, fez-se ouvir: “É a Hora!”. De reconhecer, valorizar, proteger e divulgar o património natural (conferir “O Jardim do Jacarandá-Mimoso”) ou histórico (ver, a título de exemplo, “Criação e Fundação do Museu do Azulejo”), ou de apoiar os artistas do concelho, à semelhança do resgate de um músico empreendido por Rui Calisto, que, assim, através da oportunidade concedida, o catapultou para novos voos (ler “Tiago Mileu”). É hora de restituir as glórias passadas com as novidades do presente.
O vento está de feição, as propostas estão criadas e aprovadas, que mais falta para que nasça a cidade ideal, para o bem de todos, e para que a luta de Rui Calisto não se fique pela pena e que todo o seu trabalho tenha valido a pena? Que não se cumpra o triste desfecho de tantos luminares cujo reconhecimento chegou tardiamente! Caldenses, há uma luz que aponta o caminho que dissipa o nevoeiro, mas há que saber que coisa se quer e que alma se tem! Longa vida ao Mestre, que, “Poeta, é na terra o coração pensando”, e que, com o seu dom da palavra aliado ao mais nobre caráter moral, continue a iluminar o futuro e a apadrinhar, guiar e despertar “legiões de sonhadores, / Almas claras de Amor, irmãs gémeas das flores”, que construam uma nova Humanidade e sejam capazes de “reflorescer os rosais da Verdade” ((versos do poema “Abstracção”, publicados no livro Verão, de José Martins Fontes (1884-1937)).
Quanto a mim, resta-me agradecer a extrema generosidade e o voto de confiança do autor, que, mal conhecendo o meu trabalho (por pouco haver a conhecer), não hesitou em me honrar com a possibilidade de prefaciar este primeiro volume de uma série com mais de uma dezena, nesta que é também a minha estreia na literatura. “Conter o mundo num só grito” é para Florbela Espanca, não possuo o seu poder de síntese nem, tão pouco, como ser imperfeito, tenho a capacidade de fazer jus à pessoa sublime que Rui Calisto é. Por isso, ao autor, peço perdão e lhe beijo a mão, em sinal do meu enorme apreço, gratidão e admiração. Ao querido leitor, de onde quer que seja oriundo, agradeço a paciência e desejo uma excelente leitura, relembrando que estes textos, apesar de versarem sobre as Caldas da Rainha, são uma inspiração para todo o mundo!
Joana Cavaco